domingo, 5 de agosto de 2012

Psicologia Evolucionista - 1

Porque o ser humano é capaz de atos tão heróicos, mas também de outros tão cruéis? Porque fazemos sexo e fazemos guerra? Como indagava o grande Cazuza, porque que a gente é assim?
No final da década de 1980, pesquisadores de diversas áreas interessados no comportamento humano começaram a se perguntar se a teoria da seleção natural de Darwin poderia ajudar a responder esse tipo de pergunta, fundando uma das áreas mais influentes e importantes da psicologia atualmente – a Psicologia Evolucionista.
Charles Darwin
Darwin, ciente das implicações de sua teoria, conclui o seu livro A Origem das Espécies prevendo que “a psicologia será baseada em novos alicerces”. Provavelmente devido ao receio das reações que o seu provocativo livro causaria, Darwin não explorou muito a questão neste livro. Em livros subsquentes como A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais e A Origem do Homem e a Seleção Sexual, Darwin trouxe evidências que indicavam a importância de sua teoria para a compreensão da natureza humana.
Muitas questões levantadas por ele ficaram em aberto e só foram retomadas por volta de 100 anos após a publicação de A Origem das Espécies com o advento da Etologia, da Sociobiologia, da Ecologia Comportamental e, mais recentemente, da Psicologia Evolucionista. Boyer e Heckhausen (2002) consideram a Psicologia Evolucionista como um dos mais importantes desenvolvimentos recentes nas ciências do comportamento.

A Nova Ciência da Mente

Até a década de 1980, grande parte dos grandes teóricos na Psicologia já haviam de alguma forma aludido à teoria da seleção natural quando falaram do ser humano, entre eles William James, Freud e Skinner. Entretanto, nenhum deles explorou devidamente as implicações diretas da teoria da seleção natural para o entendimento do ser humano, se restringindo à homenagens superficiais (Otta e Yamamoto, 2009).
Na biologia, campos como a Etologia e a Sociobiologia já vinham produzindo grandes contribuições na Biologia Evolucionista para o entendimento do comportamento de animais não-humanos e humanos, usando como base o modelo de Darwin. O final da década de 1960 foi marcado pelo surgimento da Ciência Cognitiva, uma área interdisciplinar buscando unir os esforços dos recentes avanços na neurociência, psicologia cognitiva, antropologia, ciência da computação, filosofia e da pesquisa em inteligência artificial para compreender como o ser humano processa informações.
ResearchBlogging.orgFoi da união entre a Ciência Cognitiva e a Biologia Evolucionista que surgiu a Psicologia Evolucionista, uma área de pesquisa com o objetivo de “estudar o comportamento humano como produto de mecanismos psicológicos evoluídos que dependem de inputs internos e ambientais para o seu desenvolvimento, ativação e expressão no comportamento manifesto” (Confer et al., 2010).
De forma simples, a Psicologia Evolucionista tenta entender porque o ser humano se comporta de uma determinada forma, se atentando para a função adaptativa desse comportamento (Izar, 2009).

De acordo com Darwin (1859), variações de características passadas adiante por progenitores á sua prole que aumentassem a chance de um organimo sobreviver e se reproduzir seriam transmitidas em maiores frequências para as gerações subsequentes do que as variações alternativas. Esse processo resultaria em adaptações, subprodutos e “ruído genético” (Confer et al., 2010) – adaptações são variações de características herdadas que resolveram, de forma mais eficiente que outras alternativas, problemas relacionados à sobrevivência e à reprodução (e.g. medo de cobras perigosas;) subprodutos são variações de características que não possuem uma função adaptativa mas persistem por estarem inerentemente relacionados com adaptações (e.g. medo de cobras inofensivas); ruídos genéticos são variações de características que resultaram de mutação genética ou de eventos ambientais aleatórios (e.g. medo do sol resultante de fatores genéticos e de desenvolvimento aleatórios).
Uma das idéias mais importantes na Psicologia Evolucionista é que o ser humano possui uma série de adaptações psicológicas – circuitos de processamento de informação que computam informações e transformam essas informações em respostas funcionais com o objetivo de resolver problemas específicos de adaptação (Confer et al., 2010).
“A mente humana é um conjunto complexo integrado de várias adaptações psicológicas funcionalmente especializadas que evoluíram como soluções de problemas adaptativos numerosos e qualitativamente distintos” (Cofner et al., 2010).
Dentro da perspectiva defendida por muitos pesquisadores da Psicologia Evolucionista, o cérebro humano pode ser entendido como um conjunto de sistemas computacionais resultante do processo de seleção natural visando “resolver problemas adaptativos de sobrevivência enfrentados por nossos ancestrais caçadores-coletores” (Seild de Moura e Oliva, 2009). Nós, seres humanos, somos uma espécie de primata com um cérebro avantajado que realiza uma série de complexas operações computacionais para processar informações, e podemos chamar esse conjunto de mecanismos de “mente”.
Tais adaptações evoluíram a partir dos constantes desafios encontrados por nossos ancestrais em suas buscas por comida, parceiros sexuais, segurança e cuidado parental. A Psicologia Evolucionista preconiza que a função de todo o comportamento é o sucesso reprodutivo, mas isso não quer dizer que essa é a forma que o ser humano deve se comportar nem que esta meta seja de alguma forma consciente ou planejada (Neuberg, Kenrick e Schaller, 2010).
Entretanto, sendo uma área ainda tão jovem de pesquisa, a Psicologia Evolucionista é muito heterogênea e seus pesquisadores têm oferecido diferentes propostas de estudo. Tem se tornado comum na literatura se referir aos psicólogos evolucionistas no sentido estrito e aos psicólogos evolucionistas no sentido amplo, sendo os primeiros representados por adeptos da proposta de alguns dos fundadores da disciplina como Cosmides e Tooby, e os segundos sendo pesquisadores interessados pelo pensamento evolucionista na teorização em psicologia, mas que não concordam necessariamente com a proposta de Cosmides e Tooby (Mameli, 2007).
Porém, muitos autores de ambas abordagens defendem que a teoria da evolução de Darwin não só pode como deveria fazer pela psicologia o mesmo que fez pela biologia, integrando todas as suas sub-áreas em uma mesma metateoria organizativa deste campo (Duntley e Buss, 2008), a partir de uma mesma linguagem evolucionista que traria coerência lógica e conceitual entre as diversas linhas de pesquisa na psicologia e suas respectivas teorias (Dunbar e Barrett, 2007). Além disso, a teoria evolucionista tem um grande valor heurístico, pois nos permite fazer predições precisas sobre como se espera que pessoas se comportem se uma hipótese específica for verdadeira.

Evidências

Numerosas evidências empíricas derivadas da lógica evolucionista têm demonstrado a importância e a originalidade da contribuição que a Psicologia Evolucionista oferece para a compreensão do comportamento humano. Um exemplo disso foi uma série de pesquisas que investigou o medo em seres humanos (Mineka & Öhman, 2002).
Esta série de estudos demonstrou empiricamente que seres humanos e outros primatas possuem um intensificado medo de cobras e aranhas: os resultados indicaram que a presença de cobras e aranhas em uma tarefa visual capturou automaticamente a atenção dos participantes muito mais que objetos inofensivos; que seres humanos são mais rapidamente condicionados a ter medo de cobras do que muitos outros estímulos, além dessa adaptação de medo de cobras ser difícil de extinguir e poder ser relacionada com circuitos neurais especializados.
Cobras, aranhas, altura e estranhos foram perigosas ameaças para os primeiros seres humanos a viver nas savanas africanas. Coincidentemente ou não, esses quatro estímulos aparecem regularmente no topo das listas de fobias mais comuns, em uma frequência muito superior do que ameaças atuais muito mais perigosas e importantes para a sobrevivência, como carros e armas (Confer et al., 2010).
Outra importante série de estudos tem sido empreendida pela equipe da professora Nairne sobre memória adaptativa (Nairne, Pandeirada & Thompson, 2008). A hipótese inicial da equipe era de que sistemas evoluidos de memória deveriam ser sensitivos à conteudos relacionados com a aptidão evolutiva da espécie humana. Experimentos utilizando uma tarefa de priming envolvendo cenários e uma tarefa de revocação surpresa identificaram que as palavras apontadas pelos participantes como tendo relevância para a sobrevivência na tarefa envolvendo cenários foram significativamente mais relembradas do que palavras relacionadas à outros conteúdos.
Estudos subsequentes comparando o processamento relacionado à sobrevivência com outras técnicas de codificação da memória levaram a equipe à conclusão de que o processamento de informações relacionado à sobrevivência é um dos procedimentos de codificação mais robustos na área de pesquisa sobre a memória humana.
Outro grande achado da Psicologia Evolucionista é o já bem documentado efeito Cinderela. Este efeito propõe que existe uma probabilidade significativamente maior de crianças adotadas ou criadas por pais não-biológicos de serem maltratadas (i.e. violentadas, abusadas, mortas) por seus pais do que crianças criadas pelos seus dois pais biológicos. A hipótese, gerada a partir da teoria da solicitude discriminativa dos pais, tem sido repetidamente corroborada em diversos contextos e com diversas espécies (Daly e Wilson, 1985; 2005).
A hipótese de que a mente humana é composta por diferentes adaptações psicológicas ou módulos cognitivos tem recebido grande suporte empírico, sendo que “não parece haver atualmente quem rejeite seriamente a idéia de alguma especificidade de processamento em domínios” (Seild de Moura e Oliva, 2009). As evidências têm convergido de diferentes campos como as neurociências, a Neurologia, a Psicologia Evolucionista, a Psicologia do Desenvolvimento e a Psicologia Diferencial: crianças e adultos que possuem habilidades gerais muito pobres mas demonstram habilidades muito sofisticadas em domínios específicos (i.e. os autistic savant);  bebês que possuem competências especializadas desde muito cedo; pacientes com lesões cerebrais que prejudicam alguma capacidade específica do indivíduo sem que haja qualquer prejuízo em outras capacidades.
Pesquisadores da área de plasticidade cerebral tem criticado a hipótese de modularidade, apresentando evidências de que o encéfalo humano é muito flexível e que várias capacidades humanas dependem de uma alta fluidez cognitiva. Entretanto, as evidências nas neurociências tem corroborado tanto a hipótese de modularidade como a de plasticidade – apesar de nenhuma função cerebral ser executada plenamente e rigidamente por uma região específica do encéfalo, nem todas as regiões encefálicas são igualmente responsáveis por uma função específica (i.e. amígdala), ou seja, as duas hipóteses não são mutuamente exclusivas.
Cabe ressaltar que, por se tratar de uma hipótese dentro de um nível de análise computacional, a hipótese de modularidade da mente humana não tem qualquer compromisso com uma divisão geográfica de funções no encéfalo ou com a tese localizacionista no âmbito das neurociências. A natureza, a quantidade e a localização encefálica destes módulos ainda são assuntos longamente debatidos e estudados na literatura da área e que parecem ainda longe de serem resolvidos.

Dificuldades, Confusões e Críticas

Apesar de ser um campo muito novo de pesquisa e promissor para o entendimento do ser humano, a Psicologia Evolucionista ainda enfrenta muitas dificuldades empíricas, confusões e críticas. A área herdou uma antipatia da Sociobiologia, visto que essa  acabou sendo muito críticada pelo suposto excessivo determinismo genético, o que a rendeu uma série de críticos ferrenhos (i.e. Stephen Jay Gould). Todavia, a maior parte das críticas dirigidas a um dos maiores nomes da Sociobiologia, E. O. Wilson, por exemplo, foram infundadas e precipitadas, mesmo que algumas críticas como a ausência de evidências em algumas especulações dele fossem verdadeiras (Mameli, 2007).
Uma grande dificuldade enfrentada pelos psicólogos evolucionistas é que boa parte das suas teorias dependem das evidências que possuimos sobre como era o ambiente no qual os nossos ancestrais evoluíram, ou seja, de informações sobre o nosso Ambiente de Adaptação Evolutiva. Este conceito é ao mesmo tempo um dos mais importantes e um dos mais polêmicos na área, visto que possuimos poucas evidências para conseguir descrever com grande precisão quais foram as características do ambiente seletivo no qual se desenvolveram as nossas capacidades mais complexas. Além disso, outra dificuldade com o Ambiente de Adaptação Evolutiva existe na justificativa para definir o seu período histórico como sendo o Pleistoceno (Mameli, 2007).
As evidências disponíveis indicam que os primeiros homo sapiens sapiens viveram nas savanas africanas, à cerca de 150 mil anos atrás, em pequenos grupos cooperativos onde muitos eram parentes (Richerson & Boyd, 2005), em um ambiente complexo e de difícil navegação, onde conseqüentemente os indivíduos eram forçados a cooperar para completar atividades necessárias à sobrevivência como localizar e proteger fontes de comida e abrigo, defender-se contra predadores e criar a prole (Lakin, Jefferis, Cheng e Chartrand, 2003).
Muitas críticas têm sido feitas também à ênfase de muitos pesquisadores da área no adaptacionismo, visto que outros processos seletivos como a exaptação, a deriva genética, a seleção sexual e a construção de nicho têm sido negligenciados pelos psicólogos evolucionistas. Como muitos aspectos do nosso ambiente de adaptação mudaram radicalmente do ambiente das savanas africanas, alguns autores argumentam que nem todos os comportamentos humanos atuais podem nos informar sobre os comportamentos dos seres humanos que viveram no Pleistoceno ou sobre a aptidão que estes comportamentos conferiram aos nossos ancestrais, visto que os mesmos mecanismos psicológicos podem estar envolvidos na produção de diferentes comportamentos em diferentes ambientes e que boa parte dos nossos comportamentos provavelmente são novidades evolutivas por conta da construção de nichos diferenciados ao longo da história evolutiva da nossa espécie (Mameli, 2007).
Seria impossível (ou ao menos inconveniente) tentar esgotar todas as grandes contribuições, dificuldades e desafios enfrentados pela Psicologia Evolucionista. Muitos outros textos explorando de forma mais específica os temas dentro desta área haverão de vir! A quantidade de simplificações e críticas sem embasamento que são ditas sobre a Psicologia Evolucionista é enorme.  Um bom texto feito pela Isabella Bertelli e pelo Marco Varella que trata deste assunto pode ler lido “aqui“. Fica aqui também a indicação do ótimo blog do Marco Varella no scienceblogs sobre psicologia evolucionista, o “Marco Evolutivo“.
A despeito das dificuldades enfrentadas pela área, inerentes à qualquer empreendimento científico, tudo indica que a Psicologia Evolucionista veio para ficar (Dunbar e Barrett, 2007).
Referências:
Boyer, P., & Heckhausen, J. (2002). Introductory notes. American Behavioral Scientist, 43, 917-925.
Confer, J., Easton, J., Fleischman, D., Goetz, C., Lewis, D., Perilloux, C., & Buss, D. (2010). Evolutionary psychology: Controversies, questions, prospects, and limitations. American Psychologist, 65 (2), 110-126 DOI: 10.1037/a0018413
Daly, M., & Wilson, M. (1985). Child abuse and other risks of not living with both parents Ethology and Sociobiology, 6 (4), 197-210 DOI: 10.1016/0162-3095(85)90012-3
Daly, M., & Wilson, M. (2005). The ‘Cinderella effect’ is no fairy tale Trends in Cognitive Sciences, 9 (11), 507-508 DOI: 10.1016/j.tics.2005.09.007
Darwin, C. (1859/2004). A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret.
Dunbar, R., & Barrett, L. (2007). Evolutionary psychology in the round. In R. Dunbar & L. Barrett (Eds.), Oxford Handbook of Evolutionary Psychology (pp 3-9). Oxford: Oxford University Press.
Duntley, J. D., & Buss, D. M. (2008). Evolutionary Psychology Is a Metatheory for Psychology. Psychological Inquiry, 19, 30 – 34.
Izar, P. (2009). Ambiente de adaptação evolutiva. In E. Otta e M. E. Yamamoto (Eds.). Psicologia Evolucionista (pp. 22–32). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Lakin, J. L., Jefferis, V. E., Cheng, C. M., & Chartrand, T. L. (2003). The chameleon effect as social glue: evidence for the evolutionary significance of nonconscious mimicry. Journal of Nonverbal Behavior, 27, 145-162.
Mameli, M. (2007). Evolution and psychology in philosophical perspective. In R. Dunbar & L. Barrett (Eds.), Oxford Handbook of Evolutionary Psychology (pp 21-34). Oxford: Oxford University Press.
Mineka, S., & Öhman, A. (2002). Phobias and preparedness: The selective, automatic, and encapsulated nature of fear. Society of Biological
Psychiatry, 52, 927–937. doi:10.1016/S0006-3223(02)01669-4
Nairne, J., Pandeirada, J., & Thompson, S. (2008). Adaptive Memory: The Comparative Value of Survival Processing. Psychological Science, 19 (2), 176-180 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2008.02064.x
Neuberg, S. L., Kenrick, D. T., & Schaller, M. (2010). Evolutionary social psychology. In S. T. Fiske, D. T. Gilbert, & G. Lindzey (Eds.), Handbook of Social Psychology (5 ed., Vol. 2, pp 761-796). New Jersey: Jon Wiley and Sons.
Otta, E., & Yamamoto, M. E. (2009). Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Richerson, P. J. & Boyd, R. (2005). Not by genes alone: How culture transformed human evolution. Chicago: University of Chicago Press.
Seild de Moura, M. L., & Oliva, A. D. (2009). Arquitetura da mente, cognição e emoção: Uma visão evolucionista. In E. Otta e M. E. Yamamoto (Eds.). Psicologia Evolucionista (pp. 42–53). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

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